Por que temos tanto medo de sair da casa dos pais e ir para o mundo

Nós nos tornamos apegados demais ao conhecido – acostumados, diria. E, por esse motivo, frente a “qualquer desconhecido”, nos afogamos em poços internos de medo, ansiedade, pânico e desespero.

“Não fomos (fui) treinado pra isso!” – sente-se, sem conseguir expressar.

“Sair da casa dos pais”, “o primeiro emprego” ou “emprego nenhum”, é tudo tão intenso quanto “MORTE!”.

Perdemos nossa capacidade de discernimento concernente à intensidade/risco “desse desconhecido particular na minha frente”. Tudo parece ter a mesma ordem de grandeza e, assim, desencadeia a mesma resposta: “AAAHHH!!!” – grita a nossa psique e fisiologia.

Diagnóstico

Uma hiper-sensibilidade dos mecanismos que em nós detectam perigo. Logo, “qualquer desconhecido” é “desconhecido demais” – “já tá dando uma falta de ar aqui, acho melhor mudar de assunto“… – calma, sou eu que estou escrevendo.

Está tudo misturado: “predador-futuro-escuro-possibilidades”. Então precisamos começar a desconfundir. O medo é útil, funcional, mas não da forma como condicionamos na nossa sociedade.

Ficamos tanto tempo isolados nas nossas respectivas bolhas de experiências “pré-processadas”, que nossos sistemas de detecção estão descalibrados para qualquer experiência sem precedência, que ainda não esteja categorizada e já bem decifrada. Perante qualquer elemento incógnita, já tratamos de arrumar uma fórmula, “tenho certeza que nós temos uma solução para isso, rafa” – diz minha razão reprimidamente desesperada.

Perdemos a habilidade de olhar, não entender e não surtar.

Preferimos nos iludir ao “encaixar” do que enfrentar a possibilidade de não compreender.

E, apesar das nossas inocentes expectativas e construída e/ou reforçada incapacidade de lidar com o desconhecido, este, continua a nos confrontar.

O chão eventualmente some.
O inesperado eventualmente bate na porta.
Aquele “emprego certo” eventualmente te decepciona.
A dúvida eventualmente te enlouquece.
O caos eventualmente te engole.

O dragão eventualmente aparece, independentemente da forma…

…seja subjetiva, concreta, psicológica ou psicodélica, uma hora a vida nos faz olhar para o que não conseguimos entender.

E, como falei no início, nós fazemos parte de uma sociedade que, não só “esqueceu” como lidar com o desconhecido, mas fez dele um tabu – falo daquele que ocupa o lado de fora, mas principalmente do desconhecido que jaz aqui dentro.

Por isso, é imprescindível reaprendermos a lançar mão das mais diferentes técnicas e ferramentas (internas e externas) que vêm sendo ensinadas há, literalmente, milhares de anos. E que, diga-se de passagem, se alinham com a mais sofisticada psicologia. Não se esconde a existência e intensa influência desses dragões sobre nós – não se banaliza ou ignora, sua presença. Se enfrenta e integra.

Atenção

A meditação é uma técnica ancestral extremamente eficiente. Tenho uma relação não convencional com ela. Pratico desassociado de qualquer tradição em paticular, mas vejo utilidade no que muitas delas ensinam sobre.

O elemento principal que pude notar até então é a atenção. Hoje vejo a meditação como meio para treinar a atenção. E ela se torna uma ferramenta a medida que lanço mão de sua efetividade como meio para alguma outra coisa. Porém, ela é algo em si, que ainda não compreendo muito bem.

No mais, frente a qualquer dragão interno, recomendo respirar – e respirar até não perceber mais que está respirando. Deixe os hormônios e neurotransmissores atravessarem a sua corrente sanguínea e se dissiparem completamente (o que só dura 90 segundos).

Seja a raiva, o medo, o estresse – ou qualquer emoção que você experimente como “positiva” ou “negativa” -, é enraizada neurofisiologicamente e, uma vez liberada, dura 90 segundos na corrente sanguínea.

Toda emoção é como estar atravessando de uma margem do rio para outra. Podem ser águas fortes, fracas, rasas ou profundas. O que não muda o fato de ser um rio que você está atravessando. Agora, se você se desequilibra, pode ser que a correnteza te leve embora. Quando você se centra, você atravessa o rio em 90 segundos. E tudo aquilo é visto como algo que passou – que era real, intenso, envolvente, mas que não é o fim do mundo.

Espero que o que compartilhei aqui tenha sido útil para você. E se acha que alguém pode se beneficiar desse conteúdo, compartilhe com essa pessoa.

Obs.: válido ressaltar que encontrar uma assistência profissional psicoterapêutica que faça sentido pra você pode ser extremamente útil e, em diversos casos, necessário. Ainda mais quando combinada com muitas das técnicas absurdamente antigas, das quais meditação é apenas uma delas.

por Rafael Jordão.

No mais, se você quiser entrar em outra frequência, veja também: Como aproveitar ao máximo o isolamento social durante a pandemia e dar a volta por cima.