pode chorar, irmão - masculinidade

Por causa do filme, do abraço, da morte de alguém ou simplesmente por não aguentar a pressão: pode chorar, irmão.

Nada que faz alguém tentar esconder o um sentimento é superficial.

Parte da sociedade diz: “isso já foi”, “a gente já sabe” – só que na real não.

Ainda não desmistificamos isso, meramente “descascamos” a primeira camada. E, mesmo assim, nem todo mundo.

Essa “crosta” é mais profunda do que a gente quer acreditar.
Eu levanto pra “velhinha” no ônibus, mas não levanto pro “coroa” – percebe, até os rótulos são diferentes – “ele aguenta”, diz o que não é falado; “ela não”, se esconde por baixo da mesma coisa não falada.

Estou negando as diferentes tendências à constituição muscular, maiores e menores, de homens e mulheres? Não.
Apenas comunicando que certos padrões biológicos são extrapolados e/ou repercutem de forma desnecessária e até nociva para outros aspectos das nossas vidas.

Esse fato biológico é mal compreendido: o gênero masculino ter maior facilidade, em função das concentrações hormonais, de construir massa muscular, não quer dizer que “esse homem” (em particular, na minha frente) vai ser mais forte que “essa mulher” (em particular, na minha frente).

Esse fato diz apenas que NA MÉDIA, estatisticamente, se você fizer um levantamento com 1000 homens e 1000 mulheres, aleatoriamente, existe mais chance da maior parte dos homens terem, vamos dizer assim, para descomplicar, mais “força física”, do que a maior parte das mulheres.
E, em função de uma sequela dogmática e social, esse simples fato sobre a nossa fisiologia se distorce a ponto de virar: “ele aguenta, ele é forte”; “ela não, ela é fraca”.

A nóia é que isso é ruim para ambos, mulheres e homens.
Porque cria-se uma pré-concepção baseada numa abstração de que qualquer mulher é “fraca”, e de que qualquer homem é “forte”. O que ainda vaza para além do âmbito muscular, infectando nossa visão sobre o psicológico, emocional, relacionado ao que podemos alcançar, realizar, etc.

Então espera-se menos das mulheres e mais dos homens; “elas” são SUBestimadas e “eles” SUPERestimados, em relação às suas respectivas capacidades indivíduais.

E como falei: isso é uma merda pros dois lados.

Mas como eu estou falando a partir de um deles, vou focar no que brota da minha experiência pessoal, e não do que consigo especular intelectualmente: nós, homens, criamos uma casca – uma armadura e uma máscara – que usamos para mediar nossa interação com o mundo.

“Esperam muito de mim” – sentimos -, e quando vemos que não vamos conseguir, algo afunda dentro de nós – mas não expressamos isso abertamente (“porque somos fortes“).

Toda angústia, todo sentimento de reprovação, toda necessidade de aprovação, todo o medo, desespero, choro; tudo isso é reprimido e colocado debaixo dessa máscara.

E, naturalmente, se compensa inconscientemente.

Enche-se a cara pra lidar com isso.
Grita-se, torce-se, para um time ou alguém, do lado de fora, ganhar.
Escarna e humilha alguém, do lado de fora, por perder.

Justamente porque não admitimos e, logo, não assumimos que sequer poderíamos nos sentir reprovados, insuficientes, sobrecarregados – e não assumimos “porque somos fortes” – projetamos tudo que aprendemos a reconhecer como fraco, reprovável, indevido, no outro.

Eventualmente, ficamos semi-consciente desse fato… então nos atordoamos e adormecemos para suportarmos isso. Porque não aprendemos a abaixar o escudo, a tirar a armadura e a deixar cair essa máscara – não conhecemos essa opção.

E dessa forma, como bem sabemos, nada é solucionado.
Porque enterrar não é dissolver, não as emoções, não os traumas, e não dentro da gente – isso só faz com que criem raízes mais profundas em nossa mente e estrutura biológica.

O único jeito de começar a solucionar isso é encarar – olhar o medo, o choro, o desespero, todas essas vontades e a fragilidade, de frente – conscientemente. É necessário assumir o que queremos, o que sentimos, desejamos, o que emerge naturalmente da gente, e que muitas vezes, em muitos dos casos, aprendemos a esconder e reprimir em nós.

Então, seja pelo filme, pelo abraço, pela morte de alguém ou simplesmente por não aguentar a pressão: pode chorar, irmão.

“pode chorar, irmão”, por Rafael Jordão.

E se quiser entrar em outra frequência, veja também: 5 passos que um espírito livre precisa dar para não se conformar.